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A dificuldade da mulher em encontrar seu espaço no audiovisual

  • Foto do escritor: Mayara Piperno Silva
    Mayara Piperno Silva
  • 20 de dez. de 2019
  • 5 min de leitura

Texto escrito por Mayara Piperno e Naiara Paiva para a Revista Gabrielle


As mulheres ainda são minorias no audiovisual, mas elas vêm conquistando seu espaço no mercado



Desde a apresentação do cinema pelos irmãos Lumière em 1895, a mulher no cinema pouco foi vista, como a Alice Guy-Blaché, considerada como a primeira cineasta e roteirista de filmes de ficção, dirigiu mais de mil filmes durante seus 20 anos de carreira, sendo 22 deles em longa-metragem, pouco conhecida e com crédito em seus trabalhos. Alice foi importante na história do audiovisual, continua a inspirar aos poucos que a conhecem, mas que vem sendo lembradas com os movimentos feministas fazendo assim; uma justiça histórica.


Somente na 82º edição do Oscar, em 2010, uma mulher ganhou pela primeira e única vez a estatueta na categoria de melhor direção, Kathryn Bigelow, por “Guerra ao Terror”. No mesmo ano, o longa foi premiado pela academia como melhor filme.


O mercado audiovisual brasileiro, conforme pesquisa realizada pela ANCINE (Agência Nacional do Cinema), em 2016 gerou 91.834 empregos, sendo 40% mulheres. A presença feminina no setor, pouco cresceu e se destaca em sua participação não democrática.


Dados divulgados pela OCA (Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual), sobre a presença feminina no audiovisual brasileiro em 2018, destaca como ainda é muito desigual esse cenário, especialmente em grandes cargos como direção, roteiro e direção de fotografia. Na pesquisa apresentada e disponível no site da ANCINE, de forma geral, entre 2.636 mil títulos produzidos, apenas 20% foram dirigidos por mulheres, em roteiro com base de 1.714 mil títulos 25% foram feitos por mulheres e em direção de fotografia entre 1.629 mil títulos, 12% foram dirigidos por mulheres, onde suas presenças são em projetos que tem orçamentos menores e não de grandes produções.


Os números de participação feminina se tornam mais alarmantes quando se trata da televisão. Em direção de fotografia com base de 770 títulos, apenas 7% foram realizados por mulheres e 89% por homens.


A participação feminina tem grande presença no cargo de produção executiva, em obras seriadas televisivas, teve presença de 43%, contra 35% masculina. Já no cinema, em 2018 foram 43% feminina, contra 27% masculina, porém 30% teve produção mista.


Para Gisele Malafronte, 51 anos, produtora executiva a 28 anos na TV Cultura, diz que sempre viu mais mulheres na produção do que homens, pois, acredita que mulheres são mais organizadas, já os homens querem cargos com prestígios maiores, como direção, direção fotográfica, montagem, operação prática, não a organização como o cargo de produtor exige.


Thais Dantas, 39 anos, assistente de produção, quando trabalhava como produtora executiva em um programa esportivo, diz que foi e é uma inserção bem difícil, por ser um público majoritariamente masculino, assim como seus colegas de equipe. Não podia agendar entrevista, pois quando fazia eram vistas como tendo conseguido de outras formas não profissionais. Outra situação lhe ocorreu quando, durante uma reunião de equipe, estava dando suas sugestões e seu chefe não a olhava, quando questionou sobre isso teve como resposta “homem não deve olhar para a mulher, pois, mulher deve ser sempre submissa e estar com a cabeça baixa”.


Camila Nunes, 22 anos, editora de pós-produção, em seu início de carreira, mulher, lésbica, sentiu mais dificuldades, onde a equipe era formada por homens. Teve que provar que sabia realmente o que estava fazendo e que sabia editar matérias de jornalismo esportivo, em contrapartida, notou que as editoras de texto se sentiam mais confortáveis em ter uma mulher na edição. Camila que já passou e trabalhou em setores de produção e pós-produção, complementa que o fato de ser nova para a área, sempre pesou muito nos lugares, mas em operações tem um peso maior por ser mulher e em algumas situações, até por ser lésbica.


Ludmila Azevedo, 42 anos, Jornalista e pós-graduada em cinema. Quando trabalhava com crítica de cinema, em escolhas de curtas para representar festival, era questionada sobre suas escolhas como não ideais e ainda orientavam o que deveria ser melhor. Também como jornalista, sofria assédio moral, onde seu superior questionava sobre tudo que fazia, importunava, diferente dos seus outros colegas homens que ocupavam os mesmos cargos, fragilizando a ponto de ter que tomar antidepressivos e frequentar ainda mais terapia para lidar.


Essas situações mesmo com algumas ferramentas para se defender, ainda causa paralisação, pois o machismo tem o poder de intimidar com diversas camadas de opressão e sexismo para serem quebrados.


Para inclusão e participação feminina no Audiovisual, este ano a ANCINE em parceria com o SESC, realizou o 3° Seminário Internacional Mulheres no Audiovisual, no evento foi convidada a palestrante Barbara Rohm, diretora de cinema Alemã, na qual faz parte do ProQuoteFilm, uma organização da sociedade civil da Alemanha criada em 2014 para promover a igualdade de gênero na indústria cinematográfica e televisiva alemã. Como referência para implementação brasileira, e com finalidade de propor e debater políticas públicas para a diversidade no setor brasileiro.


O preconceito não se limita apenas aos setores técnicos no audiovisual, existe também o preconceito com as atrizes, que quando atingem uma determinada idade, já não são mais consideradas estrelas para o mercado, com papéis menores e mais comportados, diferente dos personagens masculinos que passam ser senhores com mais sensualidade ao passar dos anos.


Glenn Close, 72 anos, atriz, cantora e produtora, quando mais nova, interpretou diversos papéis onde era uma jovem sensual, como em Atração Fatal (1987) e Ligações Perigosas (1988). Agora em sua mais recente atuação no filme ‘A Esposa’ 2019, dirigido por Björn Runge, onde a Glenn foi indicada e ganhadora do Oscar em 2019 como melhor atriz.


O filme que conta a história de um casal, onde o seu marido Joe receberá o Prêmio Nobel de Literatura, Joan, durante a viagem se questiona sobre as decisões tomadas durante toda sua vida, incluindo ser a verdadeira escritora por trás dos livros que levavam o nome de seu marido e se tornaram best-seller, já que sendo mulher não conseguia ter suas histórias aprovadas para publicação.


O longa, ainda traz a normatividade de Joe estar traindo Joan, com mulheres mais jovens e ser mais inteligente com o passar dos anos. É possível notar os questionamentos que são trazidos diariamente para as mulheres mais velhas, como ser avó, aquela que cuida e mantém o zelo dos filhos adultos, cuidar do lar e do marido sem felicidade pela idade e sem poder ser também uma mulher ativa.


Meryl Streep, 70 anos, é uma atriz de sucesso, que iniciou sua carreira ainda jovem, com papéis incríveis que renderam muitas estatuetas e indicações ao Oscar, agora que está idosa, já interpreta papéis de avó, mãe atenciosa e diretamente comportado ao que se esperar de uma mulher mais velha- diferente da jovem alegre e sensual como no filme ‘A Escolha’ de Sofia (1982).


Ainda para Ludmila, é através da construção de um estereótipo, que por vezes não tem mais um lugar no meio do audiovisual. Por estarem mais velhas, essa reprodução através dos filmes, reforçam a estrutura da mulher com corpos e beleza, reforça que o audiovisual e a comunicação devem parar de impor que a mulher tem que ser de um jeito ou de outro, ainda recomenda a leitura do livro “O Mito da Beleza- Naomi Wolf”, que aborda o conceito da visão do que é belo e referência por meio das imagens, os padrões socialmente aceitos.


Ainda tem muitos lugares que as mulheres são minoria, mas esse cenário está mudando. Os espaços estão sendo conquistados, e ainda tem muito para melhorar. Tanto no audiovisual quanto em empresas, por exemplo. O mais importante é sempre correr atrás dos seus sonhos e conquistar seu lugar no ramo que deseja. Persistência e resistência são as palavras quando se relaciona a mulher e o emprego.

 
 
 

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